Gestão de obra

Curva S do projeto: como construir, ler os desvios e reprogramar a obra

A curva S mostra o avanço acumulado da obra no tempo. Veja por que tem esse formato, como montar a física e a financeira, ler o planejado x realizado e o SPI.

João Felipe Frandolozo Fundador e diretor da Aivexor

A curva S é o gráfico do avanço acumulado de um projeto ao longo do tempo: no eixo horizontal ficam os meses e, no vertical, o percentual executado ou o valor gasto. Em obra, ela começa devagar, acelera quando várias frentes correm em paralelo e desacelera no fim, o que desenha a letra S. Comparar a curva planejada com a realizada mostra, em um gráfico só, se a obra está no prazo, quanto está atrasada e se está gastando mais do que executa.

Este guia continua o exemplo da obra de 18 meses e R$ 9 milhões do artigo sobre cronograma físico-financeiro de obra, agora com a execução real: leitura dos desvios, SPI e reprogramação. Para acompanhar com números, a planilha modelo de cronograma físico-financeiro traz uma aba de curva S com o planejado x realizado.

O que é a curva S do projeto

A curva S vale para qualquer projeto com trabalho distribuído no tempo, mas em obra ela sai direto do cronograma físico-financeiro: basta acumular, mês a mês, o avanço previsto. Na prática, a incorporadora acompanha três curvas no mesmo gráfico:

CurvaO que mostraDe onde vem
Planejada (linha de base)Avanço acumulado previstoCronograma aprovado
Realizada físicaQuanto da obra foi de fato executadoMedições de obra
Realizada financeiraQuanto foi gasto até a dataLançamentos de custo

Uma quarta curva costuma aparecer no fluxo de caixa: a de desembolso, que desloca o custo para o mês do pagamento, conforme os prazos com fornecedores.

Por que a curva de obra tem formato de S

O formato vem da forma como o trabalho se distribui. No começo, há pouca coisa acontecendo: mobilização, canteiro, fundações. No meio, estrutura, alvenaria, instalações e revestimentos correm juntos, e o volume mensal chega ao pico. No fim, sobram menos frentes. Quando se acumula uma produção mensal que sobe, atinge o pico e cai, o resultado é uma curva deitada no início, íngreme no meio e mais suave no topo.

No exemplo ilustrativo da obra de R$ 9 milhões, a produção por trimestre fica assim:

MesesObra executada no período% da obraAcumulado
1 a 3R$ 870.0009,7%R$ 870.000
4 a 6R$ 1.188.00013,2%R$ 2.058.000
7 a 9R$ 1.566.00017,4%R$ 3.624.000
10 a 12R$ 1.941.00021,6%R$ 5.565.000
13 a 15R$ 1.632.00018,1%R$ 7.197.000
16 a 18R$ 1.803.00020,0%R$ 9.000.000

Repare no último trimestre: ele quase não desacelera, porque acabamentos e esquadrias são caros. Uma curva física com pesos tirados do orçamento herda o perfil de custo da obra. Se o avanço fosse medido por horas de trabalho, o topo tenderia a ser mais achatado. Não existe formato certo, existe o formato que corresponde ao seu orçamento e à sua sequência de obra. O que é sinal de erro é a linha reta: ela indica que cada etapa foi dividida em partes iguais por mês, o que esconde os meses de pico.

Como construir a curva S de obra

Curva física

  1. Calcule o peso de cada etapa: valor orçado da etapa dividido pelo orçamento total.
  2. Distribua o percentual de cada etapa pelos meses, respeitando a sequência da obra.
  3. Multiplique o percentual do mês pelo peso e some as etapas: esse é o avanço planejado do mês.
  4. Acumule mês a mês até chegar a 100%.

O realizado segue a mesma conta, com o percentual medido de cada etapa no lugar do planejado. Como esse percentual é apurado em campo está no guia de medição de obra.

Curva financeira

É o mesmo acúmulo em reais. O planejado é o custo orçado distribuído pelos meses; o realizado vem dos lançamentos de custo. Aqui há uma escolha que precisa ser feita uma vez e mantida: lançar o custo no mês em que o serviço foi executado ou no mês em que foi pago. Misturar os dois critérios cria desvios que não existem.

Curva físicaCurva financeira
Unidade% da obraR$ acumulado
Realizado vem deMedições em campoCustos lançados
Pergunta que respondeA obra está no prazo?O gasto está coerente com o que foi feito?

Com pesos tirados do orçamento, a curva física planejada e a financeira planejada coincidem. As realizadas se separam, e a distância entre elas é informação.

Como ler a curva S: planejado x realizado

Há três leituras no mesmo gráfico:

  • Distância vertical: quantos pontos percentuais a obra está abaixo ou acima do plano.
  • Distância horizontal: há quantos meses o plano previa o percentual que a obra acabou de atingir. É o atraso em tempo, a medida mais fácil de explicar para quem não é da obra.
  • Inclinação: o ritmo dos últimos meses. Se a curva realizada está menos inclinada que a planejada, o atraso vai crescer.

SPI e CPI, sem complicação

Dois índices resumem essa leitura. Eles vêm do gerenciamento do valor agregado, e em português também aparecem como IDP (índice de desempenho de prazo) e IDC (índice de desempenho de custo).

  • SPI = valor agregado ÷ valor planejado. Valor agregado é o valor orçado do que foi executado. Com pesos do orçamento, o SPI é simplesmente o percentual realizado dividido pelo percentual planejado. SPI de 1 significa obra no prazo; 0,90 significa que foi executado 90% do que estava previsto até a data.
  • CPI = valor agregado ÷ custo realizado. Abaixo de 1, a obra gastou mais do que vale o que foi executado.

Uma limitação: no terço final da obra, o SPI tende a voltar para perto de 1 mesmo com atraso, porque cedo ou tarde tudo é executado. Nessa fase, olhe também a distância horizontal, em meses.

Exemplo: a obra de 18 meses entre os meses 9 e 12

Exemplo ilustrativo. No artigo do cronograma, a medição do mês 9 mostrou 35,5% executados contra 40,3% planejados. As medições seguintes:

MêsPlanejadoRealizadoDesvioSPIAtraso em tempo
940,3%35,5%4,8 p.p.0,880,7 mês
1046,2%40,8%5,4 p.p.0,880,9 mês
1153,9%46,9%7,0 p.p.0,870,9 mês
1261,8%53,0%8,8 p.p.0,861,1 mês

E o lado do custo:

MêsValor agregadoCusto realizadoGasto acima do executadoCPI
9R$ 3.195.000R$ 3.450.000R$ 255.0000,93
10R$ 3.672.000R$ 3.870.000R$ 198.0000,95
11R$ 4.221.000R$ 4.390.000R$ 169.0000,96
12R$ 4.770.000R$ 4.905.000R$ 135.0000,97

Para conferir o mês 12: valor agregado = 53,0% × R$ 9.000.000 = R$ 4.770.000. SPI = R$ 4.770.000 ÷ R$ 5.565.000 = 0,86. CPI = R$ 4.770.000 ÷ R$ 4.905.000 = 0,97.

O que os números dizem:

  • O prazo está piorando, e não por um mês ruim. O desvio foi de 4,8 para 8,8 pontos, e o atraso em tempo, de 0,7 para 1,1 mês. A causa aparece na inclinação: nos meses 10 a 12, a obra avançou 5,3, 6,1 e 6,1 pontos por mês, enquanto o plano pedia 6,0, 7,7 e 7,9. Justamente no pico, quando mais frentes deveriam correr juntas, o ritmo não acompanhou.
  • O custo está se acertando. O gasto acima do executado caiu de R$ 255 mil para R$ 135 mil. Parte do que parecia estouro no mês 9 era material comprado e ainda não aplicado. O saldo restante precisa ser explicado nos lançamentos.
  • O atraso tem preço mesmo sem estouro. Custos fixos da obra, como equipe de administração local e equipamentos, correm por mês, não por percentual executado. Para quem comprou na planta com financiamento assinado durante a obra, cada mês a mais também significa mais juros de obra. E, com financiamento à produção, a liberação acompanha o que a engenharia do banco mede: no Plano Empresário da Caixa, os recursos são liberados mensalmente após a medição, conforme o cronograma de obras. O efeito no caixa está no artigo sobre plano empresário e financiamento à produção.

Linha de base e reprogramação

A linha de base é a versão aprovada do cronograma, congelada. Ela é a régua fixa contra a qual o realizado é comparado. Quando o desvio deixa de ser pontual e vira tendência, como no exemplo, o plano original para de prever o futuro, e é hora de uma reprogramação formal.

Uma reprogramação bem feita segue cinco passos:

  1. Congele a versão atual. A linha de base original nunca é sobrescrita.
  2. Replaneje a partir do medido. O ponto de partida é o realizado (53,0% no mês 12), não o planejado.
  3. Teste o ritmo. Faltam 47 pontos. Terminar no mês 19 exige 6,7 pontos por mês (47 ÷ 7), acima dos 6,1 dos últimos meses, então só é realista com reforço de equipe. Terminar no mês 20 exige 5,9 pontos por mês (47 ÷ 8), o ritmo atual.
  4. Refaça o financeiro junto. Custo mensal, liberações, juros e fluxo de caixa mudam de mês. Reprogramar só o físico é meia reprogramação.
  5. Aprove e congele a nova versão como linha de base vigente, e comunique a nova data a quem precisa saber.

No exemplo, a incorporadora e a construtora escolhem terminar no mês 19, com uma segunda equipe de revestimentos:

MêsLinha de base original (v1)Reprogramação (v2)
1367,2%59,5%
1474,0%66,5%
1580,0%73,5%
1686,5%80,5%
1793,2%87,5%
18100,0%94,0%
19100,0%

Três meses depois, a medição do mês 15 aponta 73,0%. Contra a versão 2, o SPI é 0,99 (73,0 ÷ 73,5): a execução voltou ao controle. Contra a versão 1, é 0,91 (73,0 ÷ 80,0): a obra continua um mês atrás do que foi prometido no início. As duas leituras são verdadeiras e servem a públicos diferentes. A primeira diz à equipe se o plano novo está sendo cumprido; a segunda diz a sócios, compradores e banco quanto o prazo original já custou. É também a segunda que conversa com a Lei 4.591/1964: o art. 43, I, “a”, manda o incorporador enviar à comissão de representantes, a cada três meses, o demonstrativo do estado da obra e de sua correspondência com o prazo pactuado para a entrega.

Por isso, reprogramar sem guardar a linha de base é o erro mais caro da curva S: a cada ajuste, a obra parece “no prazo”, e o atraso acumulado desaparece do gráfico. O contrário também é erro: nunca reprogramar e manter um plano que ninguém segue torna o desvio inútil para decidir.

Como o Incorpex ajuda

Para a curva S servir de alerta, o previsto e o realizado precisam estar no mesmo lugar. No Incorpex, as medições ficam registradas junto do cronograma do empreendimento, com diário de obra e fotos como evidência de cada período. Quando o plano muda, a reprogramação guarda a linha de base anterior, então a distância entre o que foi planejado e o que foi executado continua visível depois do replanejamento. No lado do dinheiro, o fluxo de caixa realizado x projetado compara o desembolso da obra com o que a viabilidade previu, e investidores acompanham o andamento pelo portal. Conheça o acompanhamento de obra do Incorpex.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre curva S e gráfico de Gantt?

O Gantt mostra quando cada etapa começa e termina, em barras. A curva S soma todas as etapas e mostra o avanço acumulado da obra inteira ao longo do tempo. Os dois se completam: o Gantt explica onde está o atraso, e a curva S mostra o tamanho dele.

A curva S física e a financeira precisam ser iguais?

As planejadas coincidem quando os pesos das etapas vêm do orçamento. As realizadas quase nunca coincidem, e é essa diferença que interessa: gasto acima do executado pode ser adiantamento, material estocado ou estouro de custo.

O que significa SPI de 0,85 em uma obra?

Que a obra executou 85% do que estava planejado até aquela data. Abaixo de 1, está atrasada. Mais importante que um valor isolado é a tendência: um SPI que cai mês a mês indica que o atraso está crescendo.

Com que frequência a curva S deve ser atualizada?

O realizado entra a cada medição, normalmente todo mês. A curva planejada só muda em uma reprogramação formal, e a versão anterior deve ser guardada como linha de base.

Conteúdo informativo. Regras jurídicas e tributárias mudam e cada empreendimento tem particularidades: valide as decisões com seu contador e advogado.