Gestão de obra

Medição de obra: como fazer, boletim de medição e liberação do financiamento

Medição de obra é o levantamento do que foi executado no período. Veja como fazer, os campos do boletim de medição, a frequência e o uso na liberação do banco.

João Felipe Frandolozo Fundador e diretor da Aivexor

Medição de obra é o levantamento, em campo, das quantidades de serviço executadas em um período, convertidas em percentual de avanço e em valor. Ela é a base para pagar empreiteiros, apurar o avanço físico da obra e, em obras financiadas, liberar os recursos do banco. O documento que registra esse levantamento, item por item, é o boletim de medição.

Uma medição bem feita responde a quatro perguntas de uma vez: quanto pagar a cada contratado, quanto a obra avançou, quanto o banco deve liberar e o que informar a sócios, investidores e compradores. Uma medição mal feita erra as quatro.

O que é medição de obra

Medir é comparar o que está pronto com um critério combinado antes. O critério diz o que conta como executado: alvenaria medida só com o pano completo, laje contada depois de concretada, instalação considerada pronta depois de testada. Sem critério escrito, a medição vira estimativa, e cada parte estima a seu favor.

Quem mede costuma ser o engenheiro ou fiscal da contratante, junto com um representante da empresa contratada. Quando a incorporadora contrata a construção de terceiros, a medição é o principal instrumento de controle sobre quem executa, como mostra o artigo sobre a diferença entre incorporadora e construtora.

Medição física x medição financeira

As duas saem do mesmo levantamento, mas respondem a perguntas diferentes:

Medição físicaMedição financeira
PerguntaQuanto foi executado?Quanto vale o que foi executado?
Unidadem², m³, metros, unidades, % da etapaR$
Como se calculaLevantamento em campo contra o critérioQuantidade medida × preço unitário, ou % da etapa × valor da etapa
Para que serveAvanço físico, curva S, prazoPagamento, liberação do banco, valor agregado

Atenção a uma terceira grandeza que costuma ser confundida com as duas: o custo realizado, que é o que a incorporadora efetivamente gastou. Adiantamentos, material comprado e ainda não aplicado e pagamentos em atraso fazem o gasto se descolar do valor medido. Comparar os dois é o que revela estouro de custo.

Como fazer medição de obra, passo a passo

  1. Defina critérios e itens antes da obra. Os itens da medição devem ser os mesmos do orçamento e do cronograma, senão a medição não conversa com a curva S.
  2. Fixe uma data de corte. Sempre o mesmo dia do mês. Medir no dia 20 em um mês e no dia 5 no outro distorce o avanço.
  3. Levante em campo. Quantidades por pavimento, frente ou ambiente, com fotos datadas dos pontos medidos.
  4. Confira com projeto e diário de obra. O diário mostra o que foi feito em cada dia, quem estava no canteiro e o que impediu o trabalho.
  5. Preencha o boletim de medição. Quantidade do período, acumulado e saldo de cada item.
  6. Aprove. A contratada confere, a fiscalização valida e a incorporadora aprova. Só então a contratada emite a nota fiscal.
  7. Lance o resultado. O físico vai para o cronograma e a curva S; o financeiro, para contas a pagar e para o fluxo de caixa.

Boletim de medição: o que deve conter

Não há um modelo único obrigatório para obras privadas; o formato costuma estar no contrato. Os campos típicos são:

  • Identificação: obra, contrato, contratada, número do boletim, período e data de corte.
  • Itens: código, descrição e unidade, iguais aos do orçamento contratado.
  • Quantidades: contratada, acumulada até o boletim anterior, executada no período, acumulada atual e saldo a executar.
  • Valores: preço unitário, valor do período e valor acumulado.
  • Descontos: retenções contratuais, adiantamentos a abater e retenções tributárias aplicáveis, conforme orientação do contador.
  • Valor líquido a pagar.
  • Evidências: fotos, trechos do diário de obra, ensaios quando houver.
  • Aprovações: quem mediu, quem conferiu e quem aprovou, com datas.

Exemplo: boletim de medição da alvenaria no mês 10

Exemplo ilustrativo, na mesma obra de 18 meses e R$ 9 milhões usada no artigo sobre cronograma físico-financeiro de obra. A etapa de alvenaria e vedações vale R$ 1.050.000 e foi contratada por empreitada a preço unitário, com três itens:

ItemUnid.ContratadoPreço unitárioAcumulado anteriorNo períodoAcumulado atualSaldoValor no período
Alvenaria de vedaçãom²8.400R$ 95,002.5201.2603.7804.620R$ 119.700
Vergas e contravergasm2.400R$ 45,006003609601.440R$ 16.200
Vedações em drywallm²1.200R$ 120,0001801801.020R$ 21.600
TotalR$ 157.500

Com uma retenção contratual hipotética de 5% (R$ 7.875), o valor líquido do boletim é R$ 149.625.

O que o boletim mostra além do pagamento:

  • Avanço da etapa no mês: R$ 157.500 ÷ R$ 1.050.000 = 15%. O cronograma previa 14% para o mês 10, então a equipe até superou o mês.
  • Avanço acumulado: R$ 423.900 medidos até agora (3.780 × R$ 95 + 960 × R$ 45 + 180 × R$ 120), ou 40,4% da etapa. O cronograma previa 50% até o mês 10. A etapa começou atrasada e ainda está 9,6 pontos atrás.
  • Contribuição para a obra: R$ 157.500 ÷ R$ 9.000.000 = 1,75 ponto percentual de avanço físico no mês, vindo só da alvenaria.

Com que frequência medir

O padrão é mensal, com a mesma data de corte, porque é o ciclo do fluxo de caixa, dos pagamentos e das liberações do banco. Contratos só de mão de obra às vezes usam medição quinzenal, para não pesar no caixa do empreiteiro. O que não funciona é medir quando alguém pede dinheiro: medição fora do calendário quase sempre é adiantamento disfarçado.

Vale alinhar a data de corte interna com o calendário de vistorias do banco. Assim, a medição da incorporadora e a do banco olham para a mesma obra no mesmo momento.

Medição por empreitada x por administração

A forma de medir muda conforme o regime de contratação:

RegimeComo se medeO que se pagaPonto de atenção
Empreitada a preço globalEtapas ou eventos concluídosA parcela do preço correspondente ao eventoDefinir no contrato o que é “concluído” em cada evento
Empreitada a preço unitárioQuantidades de cada itemQuantidade × preço unitárioLevantamento preciso e itens iguais aos do orçamento
Administração (preço de custo)Avanço físico, para controle; custos por notas e folhaCusto real mais a taxa de administraçãoO custo não tem teto; só a medição física mostra se o gasto virou obra

A Lei 4.591/1964 trata desses regimes quando a construção integra a incorporação. Na empreitada, o preço pode ser fixo ou reajustável por índices previstos no contrato, e a comissão de representantes fiscaliza o andamento da obra (art. 55). Na administração, também chamada de preço de custo, o custo integral da obra é dos adquirentes, e as faturas e recibos são emitidos em nome do condomínio dos contratantes (art. 58). A comissão examina os balancetes do construtor (art. 61), e a estimativa de custo deve ser revista pelo menos a cada seis meses (art. 60). O enquadramento de cada contrato deve ser validado com advogado.

Medição para liberação do banco

No financiamento à produção, quem manda no dinheiro é a medição do banco. No Plano Empresário da Caixa, segundo a página oficial, os recursos são liberados mensalmente após a medição pela engenharia, conforme o cronograma de obras. No Apoio à Produção, os financiamentos dos compradores são liberados conforme as contratações e o percentual de execução da obra.

Na prática, isso tem três consequências:

  • A diferença de critério vira diferença de caixa. Exemplo ilustrativo: se a medição interna aponta R$ 480 mil executados no mês e a engenharia do banco reconhece R$ 430 mil, a liberação é calculada sobre os R$ 430 mil. Com um financiamento hipotético de 80% do custo, são R$ 40 mil a menos no mês, que saem do caixa da incorporadora até a próxima vistoria.
  • Os critérios precisam ser alinhados antes da primeira liberação. Pergunte à engenharia do banco como ela trata material estocado, serviços parcialmente executados e adiantamentos.
  • O cronograma aprovado é a régua. As etapas da medição interna devem ser as mesmas do cronograma entregue ao banco. Mudanças de cronograma costumam exigir análise do banco; na linha de construção individual, por exemplo, a Caixa informa que qualquer alteração de cronograma deve ser aprovada por ela.

Os efeitos das liberações no fluxo de caixa e na TIR estão no artigo sobre plano empresário e financiamento à produção.

Erros comuns na medição de obra

  • Medir a olho. Percentual estimado sem levantamento de quantidades, ou sem critério escrito.
  • Pagar à frente da medição. Se é adiantamento, registre como adiantamento e abata nos boletins seguintes.
  • Contar material entregue como serviço executado. Material no canteiro não é avanço físico.
  • Mudar a data de corte. Cada mês passa a ter um tamanho diferente, e a curva perde o sentido.
  • Itens que não batem com o orçamento. A medição até paga o contratado, mas não alimenta a curva S nem o valor agregado.
  • Não guardar evidências. Sem fotos datadas e diário, a medição não se sustenta diante de sócios, investidores, comissão de representantes ou banco.
  • Ignorar o saldo. Acumulado acima do contratado é sinal de aditivo não formalizado ou erro de levantamento.
  • Não conciliar com o banco. Divergência que se repete todo mês é problema de critério, não de sorte.

Da medição à curva S

A medição é o que transforma a curva S realizada em dado, e não em opinião. O percentual medido de cada etapa, multiplicado pelo peso dela no orçamento, dá a contribuição da etapa para o avanço da obra; somando as etapas, sai o físico realizado do mês. No exemplo, os 15% medidos na alvenaria viram 1,75 ponto de avanço da obra. Como esse realizado é comparado com a linha de base, e como ler SPI e atraso em meses, está no guia de curva S de obra.

Como o Incorpex ajuda

No Incorpex, as medições ficam registradas no projeto do empreendimento, junto com o cronograma, o diário de obra e as fotos que sustentam cada levantamento. Quando o ritmo muda, a reprogramação preserva a linha de base, e o fluxo de caixa realizado x projetado mostra o efeito no caixa. Compradores e investidores acompanham o andamento e as fotos pelo portal, sem que o comprador veja os números financeiros do projeto. Veja como funciona o acompanhamento de obra do Incorpex.

Perguntas frequentes

Quem faz a medição de obra?

Em geral, o engenheiro ou fiscal da contratante (a incorporadora ou uma gerenciadora contratada por ela) faz o levantamento junto com um representante da empresa contratada, e os dois conferem as quantidades. Em obras financiadas, a engenharia do banco faz a própria medição para liberar os recursos.

Qual a diferença entre a medição da obra e a vistoria do banco?

A medição interna serve para pagar os contratados e controlar prazo e custo, com os critérios do contrato de cada um. A vistoria do banco verifica a execução para liberar o financiamento, com os critérios do banco. As duas partem da mesma obra, mas podem chegar a percentuais diferentes.

O que é retenção contratual na medição?

É uma parte do valor medido que o contratante segura como garantia da boa execução, devolvida no fim do contrato ou após a entrega, conforme o combinado. O percentual e as condições de devolução precisam estar escritos no contrato de empreitada.

Pode medir material comprado e ainda não aplicado?

Depende do contrato. Para o controle da obra, o mais seguro é registrar o material estocado separado do serviço executado, porque ele ainda não é avanço físico. Para o banco, confirme o critério com a engenharia antes da primeira medição.

Conteúdo informativo. Regras jurídicas e tributárias mudam e cada empreendimento tem particularidades: valide as decisões com seu contador e advogado.