Gestão de obra

Curva ABC na construção civil: o que é, como montar e exemplo prático

A curva ABC ordena os itens do orçamento da obra pelo peso no custo. Veja como calcular as classes A, B e C, um exemplo completo e o cruzamento com a curva S.

João Felipe Frandolozo Fundador e diretor da Aivexor

A curva ABC na construção civil é a tabela que ordena os itens do orçamento da obra do mais caro para o mais barato e mostra o peso de cada um no total e no acumulado. A partir dela, os itens são separados em três classes: A, os poucos que concentram a maior parte do custo; B, os intermediários; e C, os muitos itens de pouco valor. Ela serve para decidir onde concentrar o tempo de quem orça, compra e controla a obra.

Este guia usa a mesma obra de 18 meses e R$ 9 milhões dos artigos sobre cronograma físico-financeiro de obra e curva S de obra, agora com o orçamento aberto em 22 serviços, e mostra como cruzar a classificação com o cronograma e com o caixa.

O que é a curva ABC na construção civil

O guia do Tribunal de Contas da União (TCU) com orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas define a curva ABC de serviços como a tabela obtida da planilha orçamentária em que os itens são ordenados por preço total, em ordem decrescente, com o peso percentual de cada um no orçamento e o percentual acumulado desses pesos. O guia foi escrito para obras públicas, mas a conta é a mesma em uma obra privada.

A lógica é a do princípio de Pareto, a regra 80/20: poucos itens respondem pela maior parte do valor. A proporção exata muda de obra para obra. No exemplo do próprio guia do TCU, uma obra rodoviária, 19 serviços somam 95,46% do orçamento, e o primeiro deles responde sozinho por 34,19%.

O problema que a curva resolve é de atenção. Um orçamento de edifício pode ter centenas de linhas, e ninguém consegue cotar, negociar e conferir todas com o mesmo cuidado. A classificação mostra onde o cuidado rende mais:

ClasseFaixa do acumulado (corte mais usado)O que reúneTratamento
AAté 80%Poucos itens de valor altoControle item a item
BDe 80% a 95%Itens de valor intermediárioAcompanhamento periódico
CAcima de 95%Muitos itens de valor baixoControle simplificado, por grupo

Curva ABC de serviços ou de insumos: qual usar

A mesma obra gera curvas diferentes conforme o que entra em cada linha:

BaseO que listaPara que serveO que exige
ServiçosOs itens da planilha orçamentária: estrutura, alvenaria, pinturaAnalisar o orçamento e priorizar contratos de empreitada e mediçõesOrçamento por serviço
InsumosMateriais, mão de obra e equipamentos, somados em todos os serviçosPesquisar preço, negociar compras e dimensionar equipesComposições de custo unitário abertas
ContratosO valor de cada fornecedor ou empreiteiroConcentrar a negociação e a gestão dos contratos maioresMapa de contratações

Na curva de insumos, o aço aparece em uma linha só, somando o que vai na fundação e na estrutura. Por isso, segundo o guia do TCU, ela depende da composição de custos unitários de todos os serviços, para agrupar os insumos similares de cada um, e permite refinar o orçamento com pesquisa de mercado dos insumos mais significativos.

Dois cuidados:

  • Não misture bases na mesma curva. Uma lista com “estrutura” (serviço) e “cimento” (insumo) conta o mesmo dinheiro duas vezes e distorce a classificação.
  • Comece pela base que você controla. A incorporadora que contrata a construção de terceiros controla contratos e medições, e para ela a curva de serviços costuma bastar. Quem compra material e administra equipe própria precisa também da de insumos. A divisão de papéis está no artigo sobre a diferença entre incorporadora e construtora.

Como montar a curva ABC a partir do orçamento

1. Organize e confira o orçamento

A planilha precisa de uma linha por item, com código, descrição, unidade, quantidade, preço unitário e valor total. Antes de calcular, confira:

  • Quantidades e unidades. Item duplicado ou omitido muda a ordem da curva.
  • Data-base dos preços. Todos os itens devem estar na mesma data. Preço de um ano atrás ao lado de cotação recente distorce os pesos.
  • BDI. Os benefícios e despesas indiretas (BDI) devem estar em todos os itens ou em nenhum. Com BDI embutido em uns e não em outros, as participações deixam de ser comparáveis.
  • Total. A soma dos itens tem de bater com o orçamento aprovado, o mesmo usado no cronograma.

2. Calcule o valor e a participação de cada item

O valor total do item é a quantidade multiplicada pelo preço unitário. Participação = valor total do item ÷ valor total do orçamento.

3. Ordene do maior para o menor e acumule

Classifique a planilha pelo valor total, em ordem decrescente. O percentual acumulado de cada linha é a soma da participação dela com as de todas as anteriores. Na última linha, o acumulado tem de dar 100%. Se não der, há linha oculta, filtro ativo ou item duplicado.

4. Defina os cortes e classifique

Não existe corte obrigatório. O mais usado põe na classe A os itens até 80% do acumulado, na B os que vão de 80% a 95% e na C os restantes. Também aparecem 70% e 90%, ou 50% e 80%. O que importa é escrever o critério e mantê-lo até o fim da obra, para que curvas de datas diferentes possam ser comparadas.

No Excel ou no Google Planilhas, com código, descrição, unidade, quantidade e preço unitário nas colunas A a E, os itens a partir da linha 2 e o total do orçamento na célula F101:

ColunaConteúdoFórmula na linha 2
FValor total=D2*E2
GParticipação=F2/$F$101
HAcumulado=SOMA($G$2:G2)
IClasse=SE(H2<=0,8;"A";SE(H2<=0,95;"B";"C"))

Formate as colunas G e H como percentual e arraste as fórmulas até a última linha. Pela fórmula, o item que cruza a linha de corte cai na classe seguinte. Quem preferir incluí-lo na classe de cima pode fazê-lo, desde que use sempre a mesma regra.

Uma ressalva: a curva mede peso financeiro, não importância técnica. Um item barato pode parar a obra se faltar. Esse ponto volta na seção sobre o que fazer com cada classe.

Exemplo: curva ABC de uma obra de R$ 9 milhões

Exemplo ilustrativo. É o prédio residencial dos artigos anteriores, com as sete etapas do cronograma abertas em 22 serviços. O valor de cada etapa é o mesmo; só o nível de detalhe mudou.

ServiçoValor orçadoParticipaçãoAcumuladoClasse
Concreto e fôrmas da estruturaR$ 1.620.00018,0%18,0%A
Armação da estruturaR$ 1.080.00012,0%30,0%A
Estacas e blocos de fundaçãoR$ 810.0009,0%39,0%A
Alvenaria de vedaçãoR$ 798.0008,9%47,9%A
Pisos e revestimentos cerâmicosR$ 780.0008,7%56,5%A
Instalações elétricasR$ 630.0007,0%63,5%A
Esquadrias de alumínio e vidrosR$ 600.0006,7%70,2%A
Revestimento de fachadaR$ 540.0006,0%76,2%A
Instalações hidrossanitáriasR$ 450.0005,0%81,2%B
Reboco e contrapisoR$ 330.0003,7%84,9%B
PinturaR$ 240.0002,7%87,5%B
Canteiro e instalações provisóriasR$ 150.0001,7%89,2%B
Vedações em drywallR$ 144.0001,6%90,8%B
Incêndio e gásR$ 120.0001,3%92,1%B
Forros de gessoR$ 120.0001,3%93,5%B
Vergas e contravergasR$ 108.0001,2%94,7%B
ImpermeabilizaçãoR$ 105.0001,2%95,8%C
Escavação e locação da obraR$ 90.0001,0%96,8%C
Portas e ferragensR$ 90.0001,0%97,8%C
Tapumes, ligações e mobilizaçãoR$ 90.0001,0%98,8%C
Louças e metaisR$ 75.0000,8%99,7%C
Limpeza finalR$ 30.0000,3%100,0%C
TotalR$ 9.000.000100%

Os percentuais estão arredondados a uma casa decimal. O resumo por classe:

ClasseServiçosValor% do orçamento
A8 de 22R$ 6.858.00076,2%
B8 de 22R$ 1.662.00018,5%
C6 de 22R$ 480.0005,3%

O que os números dizem:

  • A estrutura manda. Concreto, fôrmas e armação somam R$ 2,7 milhões, 30% da obra, em dois serviços.
  • Economia e estouro têm tamanhos diferentes em cada classe. Um desconto de 5% no concreto e nas fôrmas vale R$ 81.000. O mesmo desconto nos seis serviços da classe C, somados, vale R$ 24.000. Na direção contrária, um estouro de 5% espalhado pela classe A custa R$ 342.900, ou 3,8% do orçamento.
  • A concentração depende do nível de detalhe. Em uma lista curta, por serviço, ela fica longe do 80/20 de manual: aqui, 8 de 22 serviços (36%) somam 76% do orçamento. Quanto mais aberto o orçamento, mais a curva se inclina, e em uma curva de insumos com centenas de linhas a classe A tende a ser uma parcela bem menor dos itens.
  • Classe C não quer dizer sem risco. A impermeabilização pesa 1,2% do orçamento e fica na classe C, mas é um serviço caro de corrigir depois que o revestimento está pronto.

Como cruzar a curva ABC com o cronograma e a curva S

Cada ferramenta responde a uma pergunta:

FerramentaPergunta que responde
Curva ABCOnde o custo está concentrado?
Cronograma físico-financeiroEm que meses cada etapa é executada e quanto ela custa?
Curva SA obra está no prazo, e o gasto está coerente com o executado?
Fluxo de caixaQuando o dinheiro sai de fato?

Ligando cada serviço da classe A à sua etapa no cronograma, a classificação ganha datas:

Serviço classe AEtapa do cronogramaMeses
Estacas e blocos de fundaçãoFundações2 a 4
Concreto e fôrmas, armaçãoEstrutura4 a 12
Alvenaria de vedaçãoAlvenaria e vedações7 a 14
Instalações elétricasInstalações elétricas e hidráulicas8 a 18
Pisos e revestimentos cerâmicos, fachadaRevestimentos e acabamentos11 a 18
Esquadrias de alumínio e vidrosEsquadrias, pintura e limpeza final14 a 18

Três usos práticos saem desse cruzamento:

  • Calendário de contratação. Cada item A precisa estar cotado e contratado antes do mês em que entra na obra, com folga para fabricação e entrega. As esquadrias só aparecem no cronograma no mês 14, mas são classe A e de fabricação longa, então a negociação começa meses antes.
  • Meses de maior risco. No mês 12, o de maior valor do cronograma (R$ 711.000), correm quatro etapas ao mesmo tempo, e todas têm serviço classe A. É quando um desvio de preço ou de produtividade custa mais caro.
  • Por onde começar a investigar um desvio. No exemplo da curva S, a obra chegou ao mês 9 com R$ 255 mil gastos acima do valor executado. A curva ABC encurta a busca: os oito serviços da classe A respondem por 76% do orçamento, então a conferência começa pelos lançamentos deles.

Para fazer o cruzamento com os seus números, a planilha modelo de cronograma físico-financeiro traz as etapas, os pesos e a curva S deste mesmo exemplo.

Sinal de alerta: pago à frente do medido

Para cada item A, compare todo mês dois percentuais: quanto do contrato já foi pago e quanto do serviço foi medido. Pago muito acima do medido tem três explicações possíveis: adiantamento, material comprado e ainda não aplicado ou custo acima do orçado. As duas primeiras se resolvem com o tempo; a terceira tende a se repetir. Como apurar o percentual executado está no guia de medição de obra.

Os índices da curva S, SPI (prazo) e CPI (custo), também podem ser calculados para um item só. Um CPI de 0,95 no concreto e nas fôrmas, orçados em R$ 1.620.000, aponta para cerca de R$ 85 mil acima do orçado se o serviço terminar nesse ritmo. O mesmo 0,95 na limpeza final são menos de R$ 2 mil.

Com que frequência atualizar a curva ABC

Nenhuma norma fixa a frequência. Uma rotina que funciona:

  • A cada medição, normalmente mensal: conferir os itens A, com o valor contratado, o pago e o medido.
  • Quando o orçamento muda: recalcular a curva inteira. Os gatilhos são reajuste relevante de preços, aditivo contratual, mudança de escopo, troca de sistema construtivo e reprogramação da obra. Para acompanhar o custo da construção, a calculadora de INCC mostra a variação do índice entre dois meses.
  • A cada recálculo: guardar a versão anterior. Assim como a linha de base do cronograma, a curva original mostra depois quais itens mudaram de classe e por quê.

O que fazer com cada classe

ClasseOrçamento e compraContratoAcompanhamento
AComposição aberta e cotação com vários fornecedoresPreço fechado ou índice de reajuste definido, com critérios de medição escritosA cada medição: pago x medido, perdas e produtividade
BCotação a cada ciclo de compraModelo padrãoMensal, por grupo de itens
CCompras agrupadas e itens padronizadosSimplificadoPor exceção, quando o grupo sai da verba

A classificação por valor precisa de uma segunda lista ao lado, a dos itens críticos: os que têm prazo longo de fabricação ou entrega, os que dependem de fornecedor único e os que travam os serviços seguintes se atrasarem ou falharem. Um item C que esteja nessa lista recebe controle de item A. A impermeabilização e as ligações definitivas de água e energia são exemplos comuns: pesam pouco no orçamento e podem atrasar a entrega.

Erros comuns na curva ABC

  • Misturar serviços e insumos na mesma lista. O mesmo custo entra duas vezes.
  • Deixar linhas genéricas grandes. Uma linha “instalações” de R$ 1,2 milhão esconde o que há dentro. Itens A devem ser abertos até o nível em que se contrata e se mede.
  • Usar preços de datas diferentes, ou BDI só em parte dos itens. Os pesos deixam de ser comparáveis.
  • Tratar a classe C como irrelevante. O valor é baixo, mas a falta de um item crítico interrompe a obra do mesmo jeito.
  • Montar a curva no orçamento e nunca mais abrir. Preços e escopo mudam, e itens trocam de classe.
  • Confundir orçado com realizado. A curva do orçado mostra onde está o risco. Refeita com os custos realizados, mostra para onde o dinheiro foi. A comparação entre as duas revela quais itens estouraram.

Como o Incorpex ajuda

A curva ABC nasce do orçamento, em planilha ou no sistema de orçamento de quem constrói, e o Incorpex não substitui essa etapa. O que ele reúne é o outro lado da comparação. As medições ficam registradas junto do cronograma do empreendimento, com diário de obra e fotos como evidência de cada período. A reprogramação preserva a linha de base, e o fluxo de caixa realizado x projetado compara o que a obra está consumindo com o que a viabilidade previu. Com o previsto e o realizado no mesmo lugar, fica mais fácil perceber cedo quando uma etapa pesada sai do plano. Investidores acompanham o andamento pelo portal.

O vídeo abaixo mostra, em 51 segundos, a viabilidade recalculando, a medição da obra e os painéis do comprador e do investidor.

● INCORPEX · DEMONSTRAÇÃO 00:51
※ O Incorpex em 51 segundos · telas do app com dados de exemplo · com som

Conheça o acompanhamento de obra do Incorpex ou agende uma demonstração.

Perguntas frequentes

Qual a diferença entre curva ABC de serviços e de insumos?

A de serviços ordena os itens da planilha orçamentária, como estrutura, alvenaria e pintura, e serve para analisar o orçamento e priorizar contratos e medições. A de insumos soma materiais, mão de obra e equipamentos de todos os serviços e serve para negociar compras. Para montar a de insumos, é preciso ter as composições de custo unitário abertas.

Quais são os percentuais das classes A, B e C?

Não há corte obrigatório. O mais usado põe na classe A os itens até 80% do valor acumulado, na B os que vão de 80% a 95% e na C os restantes. Também se usam 70% e 90%, ou 50% e 80%. O importante é registrar o critério e mantê-lo do começo ao fim da obra.

Qual a diferença entre curva ABC e curva S?

A curva ABC mostra onde o custo da obra está concentrado, item por item. A curva S mostra quando o custo e o avanço acontecem ao longo dos meses. As duas se completam: a ABC aponta quais itens vigiar, e a curva S, em que meses eles pesam.

Com que frequência a curva ABC deve ser atualizada?

Os itens da classe A merecem conferência a cada medição, normalmente mensal. A curva inteira deve ser recalculada quando o orçamento muda: reajuste relevante de preços, aditivo, mudança de escopo, troca de sistema construtivo ou reprogramação da obra.

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