Curva ABC na construção civil: o que é, como montar e exemplo prático
A curva ABC ordena os itens do orçamento da obra pelo peso no custo. Veja como calcular as classes A, B e C, um exemplo completo e o cruzamento com a curva S.
A curva ABC na construção civil é a tabela que ordena os itens do orçamento da obra do mais caro para o mais barato e mostra o peso de cada um no total e no acumulado. A partir dela, os itens são separados em três classes: A, os poucos que concentram a maior parte do custo; B, os intermediários; e C, os muitos itens de pouco valor. Ela serve para decidir onde concentrar o tempo de quem orça, compra e controla a obra.
Este guia usa a mesma obra de 18 meses e R$ 9 milhões dos artigos sobre cronograma físico-financeiro de obra e curva S de obra, agora com o orçamento aberto em 22 serviços, e mostra como cruzar a classificação com o cronograma e com o caixa.
O que é a curva ABC na construção civil
O guia do Tribunal de Contas da União (TCU) com orientações para elaboração de planilhas orçamentárias de obras públicas define a curva ABC de serviços como a tabela obtida da planilha orçamentária em que os itens são ordenados por preço total, em ordem decrescente, com o peso percentual de cada um no orçamento e o percentual acumulado desses pesos. O guia foi escrito para obras públicas, mas a conta é a mesma em uma obra privada.
A lógica é a do princípio de Pareto, a regra 80/20: poucos itens respondem pela maior parte do valor. A proporção exata muda de obra para obra. No exemplo do próprio guia do TCU, uma obra rodoviária, 19 serviços somam 95,46% do orçamento, e o primeiro deles responde sozinho por 34,19%.
O problema que a curva resolve é de atenção. Um orçamento de edifício pode ter centenas de linhas, e ninguém consegue cotar, negociar e conferir todas com o mesmo cuidado. A classificação mostra onde o cuidado rende mais:
| Classe | Faixa do acumulado (corte mais usado) | O que reúne | Tratamento |
|---|---|---|---|
| A | Até 80% | Poucos itens de valor alto | Controle item a item |
| B | De 80% a 95% | Itens de valor intermediário | Acompanhamento periódico |
| C | Acima de 95% | Muitos itens de valor baixo | Controle simplificado, por grupo |
Curva ABC de serviços ou de insumos: qual usar
A mesma obra gera curvas diferentes conforme o que entra em cada linha:
| Base | O que lista | Para que serve | O que exige |
|---|---|---|---|
| Serviços | Os itens da planilha orçamentária: estrutura, alvenaria, pintura | Analisar o orçamento e priorizar contratos de empreitada e medições | Orçamento por serviço |
| Insumos | Materiais, mão de obra e equipamentos, somados em todos os serviços | Pesquisar preço, negociar compras e dimensionar equipes | Composições de custo unitário abertas |
| Contratos | O valor de cada fornecedor ou empreiteiro | Concentrar a negociação e a gestão dos contratos maiores | Mapa de contratações |
Na curva de insumos, o aço aparece em uma linha só, somando o que vai na fundação e na estrutura. Por isso, segundo o guia do TCU, ela depende da composição de custos unitários de todos os serviços, para agrupar os insumos similares de cada um, e permite refinar o orçamento com pesquisa de mercado dos insumos mais significativos.
Dois cuidados:
- Não misture bases na mesma curva. Uma lista com “estrutura” (serviço) e “cimento” (insumo) conta o mesmo dinheiro duas vezes e distorce a classificação.
- Comece pela base que você controla. A incorporadora que contrata a construção de terceiros controla contratos e medições, e para ela a curva de serviços costuma bastar. Quem compra material e administra equipe própria precisa também da de insumos. A divisão de papéis está no artigo sobre a diferença entre incorporadora e construtora.
Como montar a curva ABC a partir do orçamento
1. Organize e confira o orçamento
A planilha precisa de uma linha por item, com código, descrição, unidade, quantidade, preço unitário e valor total. Antes de calcular, confira:
- Quantidades e unidades. Item duplicado ou omitido muda a ordem da curva.
- Data-base dos preços. Todos os itens devem estar na mesma data. Preço de um ano atrás ao lado de cotação recente distorce os pesos.
- BDI. Os benefícios e despesas indiretas (BDI) devem estar em todos os itens ou em nenhum. Com BDI embutido em uns e não em outros, as participações deixam de ser comparáveis.
- Total. A soma dos itens tem de bater com o orçamento aprovado, o mesmo usado no cronograma.
2. Calcule o valor e a participação de cada item
O valor total do item é a quantidade multiplicada pelo preço unitário. Participação = valor total do item ÷ valor total do orçamento.
3. Ordene do maior para o menor e acumule
Classifique a planilha pelo valor total, em ordem decrescente. O percentual acumulado de cada linha é a soma da participação dela com as de todas as anteriores. Na última linha, o acumulado tem de dar 100%. Se não der, há linha oculta, filtro ativo ou item duplicado.
4. Defina os cortes e classifique
Não existe corte obrigatório. O mais usado põe na classe A os itens até 80% do acumulado, na B os que vão de 80% a 95% e na C os restantes. Também aparecem 70% e 90%, ou 50% e 80%. O que importa é escrever o critério e mantê-lo até o fim da obra, para que curvas de datas diferentes possam ser comparadas.
No Excel ou no Google Planilhas, com código, descrição, unidade, quantidade e preço unitário nas colunas A a E, os itens a partir da linha 2 e o total do orçamento na célula F101:
| Coluna | Conteúdo | Fórmula na linha 2 |
|---|---|---|
| F | Valor total | =D2*E2 |
| G | Participação | =F2/$F$101 |
| H | Acumulado | =SOMA($G$2:G2) |
| I | Classe | =SE(H2<=0,8;"A";SE(H2<=0,95;"B";"C")) |
Formate as colunas G e H como percentual e arraste as fórmulas até a última linha. Pela fórmula, o item que cruza a linha de corte cai na classe seguinte. Quem preferir incluí-lo na classe de cima pode fazê-lo, desde que use sempre a mesma regra.
Uma ressalva: a curva mede peso financeiro, não importância técnica. Um item barato pode parar a obra se faltar. Esse ponto volta na seção sobre o que fazer com cada classe.
Exemplo: curva ABC de uma obra de R$ 9 milhões
Exemplo ilustrativo. É o prédio residencial dos artigos anteriores, com as sete etapas do cronograma abertas em 22 serviços. O valor de cada etapa é o mesmo; só o nível de detalhe mudou.
| Serviço | Valor orçado | Participação | Acumulado | Classe |
|---|---|---|---|---|
| Concreto e fôrmas da estrutura | R$ 1.620.000 | 18,0% | 18,0% | A |
| Armação da estrutura | R$ 1.080.000 | 12,0% | 30,0% | A |
| Estacas e blocos de fundação | R$ 810.000 | 9,0% | 39,0% | A |
| Alvenaria de vedação | R$ 798.000 | 8,9% | 47,9% | A |
| Pisos e revestimentos cerâmicos | R$ 780.000 | 8,7% | 56,5% | A |
| Instalações elétricas | R$ 630.000 | 7,0% | 63,5% | A |
| Esquadrias de alumínio e vidros | R$ 600.000 | 6,7% | 70,2% | A |
| Revestimento de fachada | R$ 540.000 | 6,0% | 76,2% | A |
| Instalações hidrossanitárias | R$ 450.000 | 5,0% | 81,2% | B |
| Reboco e contrapiso | R$ 330.000 | 3,7% | 84,9% | B |
| Pintura | R$ 240.000 | 2,7% | 87,5% | B |
| Canteiro e instalações provisórias | R$ 150.000 | 1,7% | 89,2% | B |
| Vedações em drywall | R$ 144.000 | 1,6% | 90,8% | B |
| Incêndio e gás | R$ 120.000 | 1,3% | 92,1% | B |
| Forros de gesso | R$ 120.000 | 1,3% | 93,5% | B |
| Vergas e contravergas | R$ 108.000 | 1,2% | 94,7% | B |
| Impermeabilização | R$ 105.000 | 1,2% | 95,8% | C |
| Escavação e locação da obra | R$ 90.000 | 1,0% | 96,8% | C |
| Portas e ferragens | R$ 90.000 | 1,0% | 97,8% | C |
| Tapumes, ligações e mobilização | R$ 90.000 | 1,0% | 98,8% | C |
| Louças e metais | R$ 75.000 | 0,8% | 99,7% | C |
| Limpeza final | R$ 30.000 | 0,3% | 100,0% | C |
| Total | R$ 9.000.000 | 100% |
Os percentuais estão arredondados a uma casa decimal. O resumo por classe:
| Classe | Serviços | Valor | % do orçamento |
|---|---|---|---|
| A | 8 de 22 | R$ 6.858.000 | 76,2% |
| B | 8 de 22 | R$ 1.662.000 | 18,5% |
| C | 6 de 22 | R$ 480.000 | 5,3% |
O que os números dizem:
- A estrutura manda. Concreto, fôrmas e armação somam R$ 2,7 milhões, 30% da obra, em dois serviços.
- Economia e estouro têm tamanhos diferentes em cada classe. Um desconto de 5% no concreto e nas fôrmas vale R$ 81.000. O mesmo desconto nos seis serviços da classe C, somados, vale R$ 24.000. Na direção contrária, um estouro de 5% espalhado pela classe A custa R$ 342.900, ou 3,8% do orçamento.
- A concentração depende do nível de detalhe. Em uma lista curta, por serviço, ela fica longe do 80/20 de manual: aqui, 8 de 22 serviços (36%) somam 76% do orçamento. Quanto mais aberto o orçamento, mais a curva se inclina, e em uma curva de insumos com centenas de linhas a classe A tende a ser uma parcela bem menor dos itens.
- Classe C não quer dizer sem risco. A impermeabilização pesa 1,2% do orçamento e fica na classe C, mas é um serviço caro de corrigir depois que o revestimento está pronto.
Como cruzar a curva ABC com o cronograma e a curva S
Cada ferramenta responde a uma pergunta:
| Ferramenta | Pergunta que responde |
|---|---|
| Curva ABC | Onde o custo está concentrado? |
| Cronograma físico-financeiro | Em que meses cada etapa é executada e quanto ela custa? |
| Curva S | A obra está no prazo, e o gasto está coerente com o executado? |
| Fluxo de caixa | Quando o dinheiro sai de fato? |
Ligando cada serviço da classe A à sua etapa no cronograma, a classificação ganha datas:
| Serviço classe A | Etapa do cronograma | Meses |
|---|---|---|
| Estacas e blocos de fundação | Fundações | 2 a 4 |
| Concreto e fôrmas, armação | Estrutura | 4 a 12 |
| Alvenaria de vedação | Alvenaria e vedações | 7 a 14 |
| Instalações elétricas | Instalações elétricas e hidráulicas | 8 a 18 |
| Pisos e revestimentos cerâmicos, fachada | Revestimentos e acabamentos | 11 a 18 |
| Esquadrias de alumínio e vidros | Esquadrias, pintura e limpeza final | 14 a 18 |
Três usos práticos saem desse cruzamento:
- Calendário de contratação. Cada item A precisa estar cotado e contratado antes do mês em que entra na obra, com folga para fabricação e entrega. As esquadrias só aparecem no cronograma no mês 14, mas são classe A e de fabricação longa, então a negociação começa meses antes.
- Meses de maior risco. No mês 12, o de maior valor do cronograma (R$ 711.000), correm quatro etapas ao mesmo tempo, e todas têm serviço classe A. É quando um desvio de preço ou de produtividade custa mais caro.
- Por onde começar a investigar um desvio. No exemplo da curva S, a obra chegou ao mês 9 com R$ 255 mil gastos acima do valor executado. A curva ABC encurta a busca: os oito serviços da classe A respondem por 76% do orçamento, então a conferência começa pelos lançamentos deles.
Para fazer o cruzamento com os seus números, a planilha modelo de cronograma físico-financeiro traz as etapas, os pesos e a curva S deste mesmo exemplo.
Sinal de alerta: pago à frente do medido
Para cada item A, compare todo mês dois percentuais: quanto do contrato já foi pago e quanto do serviço foi medido. Pago muito acima do medido tem três explicações possíveis: adiantamento, material comprado e ainda não aplicado ou custo acima do orçado. As duas primeiras se resolvem com o tempo; a terceira tende a se repetir. Como apurar o percentual executado está no guia de medição de obra.
Os índices da curva S, SPI (prazo) e CPI (custo), também podem ser calculados para um item só. Um CPI de 0,95 no concreto e nas fôrmas, orçados em R$ 1.620.000, aponta para cerca de R$ 85 mil acima do orçado se o serviço terminar nesse ritmo. O mesmo 0,95 na limpeza final são menos de R$ 2 mil.
Com que frequência atualizar a curva ABC
Nenhuma norma fixa a frequência. Uma rotina que funciona:
- A cada medição, normalmente mensal: conferir os itens A, com o valor contratado, o pago e o medido.
- Quando o orçamento muda: recalcular a curva inteira. Os gatilhos são reajuste relevante de preços, aditivo contratual, mudança de escopo, troca de sistema construtivo e reprogramação da obra. Para acompanhar o custo da construção, a calculadora de INCC mostra a variação do índice entre dois meses.
- A cada recálculo: guardar a versão anterior. Assim como a linha de base do cronograma, a curva original mostra depois quais itens mudaram de classe e por quê.
O que fazer com cada classe
| Classe | Orçamento e compra | Contrato | Acompanhamento |
|---|---|---|---|
| A | Composição aberta e cotação com vários fornecedores | Preço fechado ou índice de reajuste definido, com critérios de medição escritos | A cada medição: pago x medido, perdas e produtividade |
| B | Cotação a cada ciclo de compra | Modelo padrão | Mensal, por grupo de itens |
| C | Compras agrupadas e itens padronizados | Simplificado | Por exceção, quando o grupo sai da verba |
A classificação por valor precisa de uma segunda lista ao lado, a dos itens críticos: os que têm prazo longo de fabricação ou entrega, os que dependem de fornecedor único e os que travam os serviços seguintes se atrasarem ou falharem. Um item C que esteja nessa lista recebe controle de item A. A impermeabilização e as ligações definitivas de água e energia são exemplos comuns: pesam pouco no orçamento e podem atrasar a entrega.
Erros comuns na curva ABC
- Misturar serviços e insumos na mesma lista. O mesmo custo entra duas vezes.
- Deixar linhas genéricas grandes. Uma linha “instalações” de R$ 1,2 milhão esconde o que há dentro. Itens A devem ser abertos até o nível em que se contrata e se mede.
- Usar preços de datas diferentes, ou BDI só em parte dos itens. Os pesos deixam de ser comparáveis.
- Tratar a classe C como irrelevante. O valor é baixo, mas a falta de um item crítico interrompe a obra do mesmo jeito.
- Montar a curva no orçamento e nunca mais abrir. Preços e escopo mudam, e itens trocam de classe.
- Confundir orçado com realizado. A curva do orçado mostra onde está o risco. Refeita com os custos realizados, mostra para onde o dinheiro foi. A comparação entre as duas revela quais itens estouraram.
Como o Incorpex ajuda
A curva ABC nasce do orçamento, em planilha ou no sistema de orçamento de quem constrói, e o Incorpex não substitui essa etapa. O que ele reúne é o outro lado da comparação. As medições ficam registradas junto do cronograma do empreendimento, com diário de obra e fotos como evidência de cada período. A reprogramação preserva a linha de base, e o fluxo de caixa realizado x projetado compara o que a obra está consumindo com o que a viabilidade previu. Com o previsto e o realizado no mesmo lugar, fica mais fácil perceber cedo quando uma etapa pesada sai do plano. Investidores acompanham o andamento pelo portal.
O vídeo abaixo mostra, em 51 segundos, a viabilidade recalculando, a medição da obra e os painéis do comprador e do investidor.
Conheça o acompanhamento de obra do Incorpex ou agende uma demonstração.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre curva ABC de serviços e de insumos?
A de serviços ordena os itens da planilha orçamentária, como estrutura, alvenaria e pintura, e serve para analisar o orçamento e priorizar contratos e medições. A de insumos soma materiais, mão de obra e equipamentos de todos os serviços e serve para negociar compras. Para montar a de insumos, é preciso ter as composições de custo unitário abertas.
Quais são os percentuais das classes A, B e C?
Não há corte obrigatório. O mais usado põe na classe A os itens até 80% do valor acumulado, na B os que vão de 80% a 95% e na C os restantes. Também se usam 70% e 90%, ou 50% e 80%. O importante é registrar o critério e mantê-lo do começo ao fim da obra.
Qual a diferença entre curva ABC e curva S?
A curva ABC mostra onde o custo da obra está concentrado, item por item. A curva S mostra quando o custo e o avanço acontecem ao longo dos meses. As duas se completam: a ABC aponta quais itens vigiar, e a curva S, em que meses eles pesam.
Com que frequência a curva ABC deve ser atualizada?
Os itens da classe A merecem conferência a cada medição, normalmente mensal. A curva inteira deve ser recalculada quando o orçamento muda: reajuste relevante de preços, aditivo, mudança de escopo, troca de sistema construtivo ou reprogramação da obra.
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